domingo, 18 de abril de 2010

Resolvi fazer um blog porque pelo menos é um jeito dos meus amigos que não convivem comigo saberem que eu não morri! Então só pra começar, esse texto que caiu na minha prova de português hoje que por sinal é MUITO bom.

Mordendo a Isca
“Para Clarice Lispector, ‘escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra morde a isca, alguma coisa se escreveu.’
O que seria, então, essa não-palavra, se estamos mergulhados num mundo verbal e repleto de informações que nos atordoam a todo instante? Se tudo o que lemos e vemos já está devidamente fabricado, mastigado e até digerido, restandonos apenas a contemplação passiva?
Essa não-palavra poderia ser aquela ideia, sensação ou opinião só nossa que ninguém jamais expressou, como: a vivência de uma paixão, o prazer de caminhar por uma praia deserta, o abrir da janela de manhã, a indignação diante dos horrores de uma guerra ou da corrupção desenfreada em nosso país ou mesmo nossos sonhos, desejos e utopias. Entrando em
contato com essas emoções, podemos descobrir um lado oculto de nós mesmos ou até deixar aparecer um pouco de nosso caráter rebelde, herói, vítima, santo e louco. Estar aberto, com o olhar descondicionado para captar essa ‘não-palavra’ é fundamental para que possamos escrever, não as famigeradas trinta linhas do vestibular mas um texto que revele nossa singularidade. Por isso,o ato de escrever requer coragem e, principalmente, uma mudança de atitude em relação ao mundo: precisamos nos tornar sujeitos do nosso discurso e pensar com nossa própria cabeça.
E como isso pode ser difícil! Quantas vezes queremos emitir nosso ponto de vista sobre um assunto e percebemos que nossa formação religiosa, familiar e escolar nos impede, deixando que o preconceito e a culpa falem mais alto!Quantas vezes o nó está preso na garganta e não podemos desatá-lo por força das circunstâncias! Ou, pior ainda, quantas vezes
nos mostramos indiferentes diante das maiores atrocidades! A rotina diária deixa nossa visão de mundo bastante opaca. No dizer
de Otto Lara Resende, o hábito "suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Só a criança e o poeta têm os olhos atentos para o espetáculo do mundo." No entanto, a superação dessas barreiras pode ser bastante prazerosa, já que o prazer não é uma dádiva e sim uma conquista. Conquista essa que podemos obter por meio da escrita, caminho eficaz para esse desvendamento de nós mesmos e do mundo. Para escrever, portanto, não necessitamos de inspirações divinas ou de técnicas e receitas mas de um olhar curioso, esperto e liberto de preconceitos e de padrões preestabelecidos. Só assim morderemos a isca.”
(MOURA, Chico. AGENDA DO PROFESSOR. São Paulo: Ática, 1994.)

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